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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Sab | 28.07.18

Uma estrangeira em terras do sul

Delcy Reis

É verdade apesar de pertencer ao meu país, venho de terras diferentes com uma origem já muito deixada para lá para trás.

E o que é que caracteriza uma "estrangeira" em terras que não são suas?

É certamente o sentimento de risco, e o sentimento de busca.

É certamente o constante alterar de rotinas e de meios e de pessoas com quem interajo.

Ao longo dos textos que tenho vindo a escrever, reforço que busco um porto de abrigo, busco alguma protecção, não só provocada por mim.

Tenho vindo a aprender a ter essa vida, dual de me proteger e poucas e raras vezes ser protegida.

E, de tantos embates, de tantos cruzamentos, refugio-me efectivamente naquilo em que confio  e que me protege e que, de certa forma, poderá trazer algum bem estar.

Que, na prática é o que todos fazemos, sendo ou não "estrangeiros".

Contudo, é mais fácil para os que têm o seu meio, o seu enquadramento perto, à distancia de meia hora, ou de um simples almoço.

Das pessoas que me lêem, muitas vezes me perguntam o que é isso do porto de abrigo?

Francamente, nem eu sei responder, mas em tempos pensava que seria ter alguém em quem confiar tudo o que me iria na alma, que certamente me iria sempre acompanhar e entender.

Senti o primeiro embate, quando "emigrei" para o sul, quando me tive que adpatar a um meio bem mais cosmopolita do que aquele de onde vinha, com multidões, com trânsito, com rapidez, com velocidade, com impessoalidade.

Sinto, esse mesmo embate, de cada vez que regresso e fui buscar o sotaque das minhas origens. Não esquecido, menos praticado.

Agora, necessito dessa pessoalidade, que vejo que não existe.

E, vendo que não existe, parto para o radicalismo absoluto, onde aceitando a evolução da vida dos que me rodeiam, opto por quebrar com a minha. Numa volta não de 360 graus, porque iria dar ao mesmo sítio, mas a 180 graus.

Aproveito, o globo terrestre, que é uma esfera, para poder dar essa volta e acrescentar mais um pontinho, que poderá ser gigante, no meu caminho. 

Mas, a sensação de constantemente me sentir diferente, pela "cruzeta", pelo "impecável", e pelo "bora lá", estupidamente acaba por me conter, o que significaria ser um camaleão e desprezar a minha essência.

E é essa essência que faz com que, me aproxime mais de umas pessoas do que de outras, que acredite mais em determinadas pessoas, que me identifique mais em determinadas pessoas. Julgo.

Só que, a avaliação que é feita, pelos que naturalmente não me conhecem, é uma avaliação superficial, maioritariamente agarrada ao que desenvolvo na minha vida adulta e não ao desenho animado que porventura posso vir a ser.

Neste estrangeirismo, podemos acrescentar o ingrediente de pessoa com carácter forte, do género feminino que, à partida, para qualquer relação inter-pessoal a surgir poderá ser intimidante. Que pena que assim seja visto.

Aprendi a gostar da cidade onde vivo, tão próxima de um mar infinito e tão cerca de um rio que se une por duas pontes. Quente e arábica.

Não pretendo com este txto apelar a qualquer sentimento de regionalização, se bem que em termos políticos sinto que essa volta se encontra a ser dada, que a  crença numa união europeia, esteja a ser destruída por interesses culturais e económicos de cada país. 

Convenhamos que, muitas foram as críticas apontadas a lideres como Hilter, ou mesmo Salazar, contudo vendo a capacidade de manipulação dos mesmos de massas, e de liderança inigualáveis, devermos ponderar efectivamente a democracia em que vivemos e o papel que cada órgão formalizado desempenha, na nossa sociedade, e que prisão poderá existir, apesar da tão proclamada liberdade que, novamente na minha opinião acaba por ser claramente condicionada.

Não vejo coerência, quer nas ideologias políticas, quer nas micro organizações ou comunidades que me rodeio.

Apenas vejo pessoas, diferentes, que ao serem totalmente transparentes não correspondem à imagem que pretendem passar.

Sei que a Delcy, será sempre coerente e uma companhia, dentro desta inconstância que é a viagem.

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