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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Síndrome de posicionamento.

31.05.20 | Delcy Reis

Escrevo este texto para todas aquelas mulheres que eventualmente se encontram em fase de vida idêntica àquela em que me encontro.

Existem vários filmes de auto motivação nos dias de hoje, para mulheres solteiras, na fase dos trinta, forçando sempre a que coloquemos tudo em perspectiva. Sempre. E o tempo passa.

A disrupção foi provocada, pelos sonhos, as expectativas criadas não se terem concretizado ou com quem idealizavam, ou por apostas em carreira, na vida profissional de ambos, descorando a vida pessoal que, nos dias de hoje, e desde sempre foi colocada em segundo plano.

E, quando acreditamos que, à medida que nos tornamos adultos, o compromisso, é tomado com seriedade, a responsabilidade é tomada como não pertencendo a ninguém. Não existem fronteiras, e as atitudes são tomadas com um frio egoísmo, independentemente do compromisso anteriormente assumido. E verdade que o amor tenderá a libertar-nos, mas teremos sempre as cordas do ring, que apesar de elásticas, estão lá.

Ora nos suportamos na parte lógica do planeamento, ora nos suportamos na parte emocional, de procurar a felicidade em algo, em alguém. E esse alguém, desde sempre me apercebi não será só uma pessoa. Têm sido várias, tendo dispersado consecutivamente o meu conceito de amor.

E nesta fase, somos supostas, de entregar para a sociedade aquilo que as restantes mulheres já entregaram. E caso não o tenhamos feito, porque seguimos caminhos diferentes, procuramos o bem estar, de forma diferente, somos eternamente julgadas pelas decisões tomadas.

Calma. Na verdade todos somos alvo de julgamento alheio, única e simplesmente porque tomamos decisões diferentes daquelas que por comparação, não foram tomadas por aqueles que nos olham. E sim, é diferente mas não é errado, porque ninguém viveu da forma que cada um de nós viveu e consequentemente percepcionou, sentiu.

E coloquemos sempre tudo em perspetiva, até a desilusão. E desconectemos de todos aqueles que nos magoaram profundamente, acabando por colocar o  peso da relatividade em tudo. 

Ignoramos as nossas vontades próprias, para poder “encaixar” em alguém, e se de repente as colocamos em alto patamar, somos rotuladas de femininistas. Ou desconectamos emocionalmente por tantas cedências, ou tanto tempo de espera.

Palavras novas surgem no meu vocabulário, como sendo o machismo, o patriarcado, o poder ser dos homens. Nunca me encontrei em tal posicionamento, e sempre procurei lidar com a diferença de género da melhor forma possivel. Reconheço que podem  existir ténues diferenças, como sendo um pintar de unhas, mas também reconheço que gosto de um bom jogo de futebol, de um bom copo de vinho e que, tendencialmente sou adepta de calças ao invés da saia e do vestido. Digamos, que para este último é claramente um esforço para poder fazer o fit.

Sempre procurei ver a não existência da diferenciação do género. Tendo a colocar uma venda nesse facto real. 

Somos supostamente assumidas como pessoas mais calmas, mais sensíveis, e se nos desviarmos deste padrão logo e naturalmente de mulher teremos muito pouco.

Portanto, o desafio será então de aquele que me “agarrar”, aquele que me quiser agarrar, ser um herói.

Porque convenhamos, falemos de alguém que se compromete como todo o ser humano, no início com todo o entusiasmo, na gíria denominado de paixão, para depois assumir a estabilidade e tranquilidade de vida, pelo desapêgo, pela desilusão. Esperava que fosse diferente. E para isso, a variável tempo, a prioridade que demos à vida, também ajuda. Sim, sentimos que não é normal, o estado em que nos encontramos, e dificilmente conseguimos encontrar quem se assemelhe à nossa situação.

E aqui surge novamente a questão do posicionamento, que parece que necessito de encontrar não sabendo bem porquê. Talvez pela nova rodada de julgamentos, de oposições, de falta de compreensão e aceitação que foi assim, e que assim teve que ser porque não existia outra solução aparentemente no momento para o meu bem estar, e dos que se encontravam próximos de mim.

Mas, seres deste mundo, não nego toda a experiência que levo até agora, a todos os níveis mas principalmente ao nível das interacções humanas, sejam elas de carácter mais íntimo ou não.

E, por mais que esteja na moda, não nos agarrarmos à nossa cultura, aos princípios que nos foram incutidos quando éramos crianças, essa desconexão é por ventura difícil de criar, se não chocarmos, se não provocarmos. E se o fazemos, corremos o risco de nos expormos sermos incompreendidas e julgadas, Portanto sim encontro-me com um síndrome de posicionamento gigante, pendendo sempre para o lado da disrupção, da provocação, da discussão, porque daí emergem novas ideias, novos caminhos, novas soluções.

Mas, é um facto, para discutir é preciso ter alguem com quem o fazer, e para o fazer, também não nos esgotamos na discussão de forma alheia, existindo principios que nos limitam.