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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Qui | 06.04.17

Ser vivo

Delcy Reis

Senti-me pousada num pedaço de terra cortado pela água, olhando um sem fim azul, com olhos de gaivota num voo onde pairava no ar, flutuava ao sabor do vento, fresco intenso e com cheiro a mel salgado. O sal na boca, húmido e doce, reavida recordações de Verão. Saudades da criancice. A procura. A busca do prazer refrescante do mergulho. O silencio do mar, o corpo fresco, a mente limpa, descansada, em paz, onde apenas me ouço a mim, pelo bater da minha máquina robusta, que persiste em continuar a trabalhar. Máquina? Corpo que anseia o toque, a uma mão pousada na pele. Salpico de água dá sensação, as gotas retidas na pele aveludada refletem a pureza do sol, do azul. Grão de areia dá sensação, como açúcar polvilhado em bola de Berlim. Hmmm. Bola de Berlim. Tal como o beijo, aquele beijo, o primeiro de todos, que nos desperta a vontade de um amor possível, e a adrenalina do desconhecido, que quero descobrir. Pára. Sente. Sente! Ouve o som da água a jorrar da tua mão para a areia, e as bolhinhas que se formam nela, percorrendo todas aquelas pedras, de variadas cores, que acaricia as conchas que foram cuspidas pelo mar, cuja canção de embalar as trouxe a um ponto de viragem que é o teu. A gaivota e a conha deixaram-se sentir, deixaram-se contemplar, deliciaram-se com a melodia da vida, tiveram medo. Sim tiveram medo. Talvez quando estavam sozinhas, talvez quando era escuro, talvez quando sentiram que já tinham viajado imenso, contemplado tudo, descoberto o erro, esgravatado as algas. A ferida da viagem é não saber desfrutá-la e saboreá-la na sua plenitude. A ferida do beijo, é saber que não vai existir mais. A ferida é não saber acreditar. A ferida é não saber viver. Vive.Já.