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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Porque não sou mãe.

04.07.21 | Delcy Reis

Desde que regressei ao meu país, pergunta que novamente assalta, de tantas e diversas formas, de tantos e diversos interlocutores.

Alguns perguntam porque é que sai do país. Este, talvez tenha sido também um dos motivos. 

E, para a qual procuro entender a resposta.

Sei que é trendy referir que as coisas acontecem, ou a seu tempo, ou quando queres, ou quando menos esperas, ou porque gostas, ou porque não desistes.

Mas, no meio de tanta complexidade, ofensa, por vezes bloqueamos as nossas acções, porque simplesmente não conhecemos nem sabemos o que é pretendido do outro interlocutor.

E porque é que o tenho de ser?

No meu caso, acho que já aconteceram, as boas e as más, das três maneiras.

E, por mais que me possa colocar na posição de olhar para a idade como um número, momentos são os que páro para balancear tudo isso. E ir aceitando o meu caminho, apreciando tudo o que de novo me possa trazer.

E talvez tenha sido a rutura. O ter ido para fora. O ter conhecido pessoas de tantos cantos do mundo, que me mostraram culturas diferentes, formas diferentes de interagir, e me fizeram ver a vida, não profissional de outra forma.

Que me fizeram ver as relações humanas de outra forma, títulos à parte, pessoas e culturas diferentes a cohabitarem o mesmo espaço.

Talvez, porque o sentimento de protecção, nunca me foi manifestado e de certa forma, aprendi da pior forma a viver de essa forma.

Talvez, porque a palavra não foi valorizada, talvez porque o compromisso também não.

Porque é que os timings nunca se revelam de acordo com ambas as partes. 

Porque é que as expectativas, devidamente partilhadas, saem defraldadas de alguma forma?

Porque é que não é fácil e concebível, dois seres humanos, coabitarem, partilharem uma vida de aventura, felicidade, tal como seria expectável aos 20 anos? 

Porque serei eu a que vislumbra, mesmo com mais idade, que tal ainda é possível?

Bem sei que, na geração em que me encontro, essa pressão adicional, para me poder enquadrar nessa geração, não ajuda. Mas, não será por isso que não terei um papel a desempenhar. 

A todos os que me perguntam porquê. A resposta é: não sei, porque não se proporcionou, porque não era prioridade para ambos, porque adiamos, porque procurei resolver, porque acreditei que as prioridades mudam ao longo do fluir da vida. Porque os timings eram desajustados. Porque não havia vontade, porque deixou de existir também esse objetivo comum para as duas partes.

Porque deixou de haver abraço, sorriso, gargalhada.

Porque, mesmo manifestando que tal poderia ser aquilo que gostava, não foi ouvido, foi colocado em segundo, último plano. Porque fui humana, e reconheci aquilo para que também foi concebida, na razão da vida.

E, quando os bons desejos comuns deixam de existir, antes de qualquer maternidade, porque a vida profissional é sempre colocada em primeiro plano. Tudo se destrói.

Quando, por defeito não nos apresentamos como um só. E talvez seja uma visão demasiadamente platónica, de uma relação.

E, meia década passada de este evento, ainda mais uno vejo o mundo em que nos encontramos.

E, seria tão simples. Diria eu que, a concepção do tal do amor, seria acrescentada a questão do compromisso, em que, de parte a parte, cedências seriam concedidas, para um objetivo comum.

E aqui, falamos em equipa, falamos em suporte. Falamos em simplesmente fazer alguém sentir-se com pertença.

Porque é que não sou mãe. Não sei. Mas, párem de perguntar por favor, senão farei porque me perguntam e não porque será a pessoa e o momento certo para o efeito, sendo que temporalmente, o momento certo estará cada vez mais escasso. E, se tal papel não se proporcionar, poder-se-ão proporcionar outros. Que deixem um pouco de mim. Um qualquer impacto.