Incompanhia

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A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

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A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Janela de vidro com nuvem

Maio 02, 2017

Delcy Reis

Quando era pequena e voava para alem fronteiras, a viagem trazia uma mística associada assim como um aperto de coração. Acreditava em todas as historias que me contavam, acreditava na imagem que concebiam do novo mundo que ia conhecer, criando um sentimento de não receio pelo desconhecido e diferente. Procurava recrear a imagem do que tinha contemplado durante o dia, nas imensas travessias dos continentes europeus, numa simples folha branca, com lápis de cor. E sabia passar horas assim, onde o tempo parecia que não queria passar. Na terra, a planicie sem fim ibérica, sempre pingada por oliveiras e sobreiros, onde o touro negro, no alto de cada montanha era o Wally do momento. Mas não tinha medo, tinha curiosidade. Só tinha medo que me ferisse o corpo. Na altura não entendia o que era uma ferida de onde não brotasse sangue, só conhecia essas pelas quais chorava pela dor, e pelo aspecto da ferida acho. Talvez também porque, por um tempo, deixaria de fazer algo que gostava (andar de escorrega), e ia ser diferente dos outros. Mas eles, sempre me fizeram sentir bem. E crescemos habituados a este conforto e apoio, a esta rede por baixo do céu de nuvens. Na viagem, a contemplar as nuvens, também me transportava, para uma meninice que hoje recordo com saudade, Pisar uma nuvem, a sensação de fofura, de suspensão e de levitação que naquele espaço poderíamos ter. A mesma que no tapete do Aladino. A mesma que no salão da Bela e do Monstro. Pular sem ter medo de cair, girar, sem querer parar. Paz quebrada. Estilhaço de vidro que corta o algodão doce.Não gosto. Entrou um pico no pé, de uma nuvem pisada. Agora, espero, pacientemente que a minha pele o expele, repele e despreze, para poder pisar a nuvem e sentir a sua fofura. Eu estava atenta, e escolhia a nuvem pequenina, que pisava com a pontinha dos dedos, que dava para planar mas não em grandes voos, para não ter medo da descida do tapete. Mas mesmo assim o pico entrou. Está na altura, de caminhar sobre a terra, húmida e grosseira, que traz vida, mas traz sujidão. Depois do pico sair, vou esfoliar o pé com um grão de terra. e vou agarrar a terra, para ficar com terra nas unhas, e na boca. Cheirar o humus, e sentir o arrepio da humidade e frio que transporta. Quando o pico sair, vou calcar a terra. Ate lá, não saio de casa, porque o pé, apesar de ser só 25% dos meus membros, é uma pequenez na pele que amo, e meu. E está a doer, tem um corpo estranho que o incomoda. Estimo o que me pertence. Por mim e para mim.

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