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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Homesick

03.09.21 | Delcy Reis

Pelo facto de ter estado fora, esta também é uma das melhores palavras que definem o conceito de closure, e homesick.

E, sabendo que não serei compreendida, são sentimentos, de pertença, de não pertença, de revolta.

Estava de facto doente de casa. E este doente de casa, tem a ver com origens, tem a ver com me lembrarem a questão das raízes.

Questão das raízes que efectivamente perdi, quando saí do meu país.

Na verdade, não perdi, apenas mascarei e suportei, porque de facto grande parte da minha vida foi vivida no meu país. E, por mais que queiramos combater essa origem, ela está lá.

Por mais que nos vejamos forçados a ter que camalear uma outra figura, para podermos pertencer, ela está lá.

Mas, o que também é facto é que, culturalmente, mesmo agora, estando no meu país, I'm a no belonging.

Sou uma esquecida.

Curioso que me cruzei, na rua com alguém que em tempos estava desempregado, e a quem dei a mão.

Curiosamente, a relação não foi mantida.

Curiosamente, em termos humanos, a cultura do desapêgo é certamente a melhor.

Porque, de facto apenas somos movidos pelos nossos interesses.

Pena que, por vezes poderão ser fugazes e não consistentes. E essa "tirada de tapete", sim traz borboletas na barriga, sim traz adrelanina num pico inicial, mas depois, e naturalmente, independentemente das emoções, e da experiência, acaba em termos práticos por se revelar igual a tantas outras.

Estava longe de crer que voltaria a perdoar o meu país.

Talvez julguem que não saiba perdoar.

Saberei, mas também saberei reconhecer a dita experiência.

Estava, pesada, com a distância, pesada com a consciência, pesada pelo julgamento, pesada pela preocupação, daqueles que não estão preocupados. Ou então estão, e que os compreendo, mas por outro lado não ajudam.

Estava doente de casa. Preenchi-me.

Estava doente de ti. Casa. Desapareceste. E tu casa, foste composto por tudo o que precisava naquele momento. Talvez, por tudo aquilo que desejava ter e não tenho.

E, ontem também te procurei. E não te encontrei. E continuo a procurar, parecendo que é o desespero de encontrar ali o que tanto acredito que faça sentido.

A palavra doente de casa, para quem vive fora, é mesmo forte. 

E são estranhas as sensações. Ouvirmos de volta a nossa lingua materna.

Ouvirmos expressões que esquecemos. Ou fizemos por isso mesmo, como refúgio.

Engraçado que, recentemente falei com alguém com quem "vivi" regularmente do outro lado do mundo. Portuguesa. E que me transmitiu isso mesmo.

Que, entrando na rotina do Inglês no nosso dia a dia, perdemos a nossa identidade. E somos um país tão pequenino e irrelevante, que por mais orgulhosos na sua venda queiramos ser, naturalmente que as atracções turísticas são o fado e o futebol. E a tal da palavra que não entendem  o que significa, que é portuguesa. Mesmo e únicamente portuguesa.

E é mesmo uma sensação estranha, porque na multiculturalidade, a aproximação que é feita entre povos tão diferentes, acaba sempre por ser nas influências que o nosso povo deixou por esse mundo fora. E parece, que é reconfortante. Mas é também fugaz.

Existe sempre a curiosidade de perceber em que é que somos diferentes. E essa é a parte mais interessante. O conhecer novas culturas. E o saberem, por visualização, neste caso e repentinamente de onde sou. Sempre acertado. Latina. 

Agarro-me às influências que também os árabes acabaram por deixar no nosso país.

E talvez esta doença, deixe de fazer qualquer sentido.