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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Dom | 09.04.17

Freedom is a way of not feeling fear

Delcy Reis

Este poderá ser um texto bastante controverso. Escrevo sobre uma artista, mãe, mulher, preta. Escrevo sobre uma pessoa que lutou durante vários anos contra o sentimento de perda: perda de crença no seu país, na não diferenciação da sua raça, e crença neste valor mesmo com a queda de um dos seus fortes pilares, na altura ( Martin Luther King). Frase, repetida, I'm a woman, and I'm black, and no one's gotta take it from me. Personalidade forte, com mensagens fortes e intensas em músicas como Four Women, Save Me, ou até mesmo a marcante Mississipi Goddam, massacre que aconteceu naquela terra, envolvendo a discriminação de raça sobre 4 crianças. Uma mulher forte, que soube superar um cancro de mama durante anos. Uma mulher que se soube valorizar, em Ain't Got No, assim como valorizar e compor uma música com tamanha complexidade sonora e profundidade a qual, acrescentamos uma voz super versátil,que percorre o soul e o gospel. Controlava a sua criação, pelas suas mãoes e pelo olhar visto, sempre que ia a um estudio, dizia para terem calma, olharem para ela e seguirem o que ouviam, que tudo ia correr bem. Não conhecia a história de Nina, e depois de a conhecer, apeteceu-me escrever, pela influência que teve na sociedade na altura, e pela influência que também, com o seu legacy, vai certamente deixar na minha pessoa: como forma de se proteger de qualquer ser humano, era bruta e assertiva, pela independência, controlo e poder de decisão que queria e gostava de ter na sua vida, por acreditar muito em si e na força que tinha em fazer valer os seus ideais. Pela constante dificuldade em confiar a sua vida a outra pessoa, pela exposição mediática que tinha, e por estar rodeado de interesse económico, que desrespeitava muitas vezes a sua cultura, a sua criação e que a levou a loucura. É mais um exemplo de que a diferença, por vezes, se bem conduzida, pode levar a mudança, e que essa conquista não foi feita sozinha, mas pela sua obra, criação onde a luta pelos mesmos direitos civis da sua raça e a não diferenciação de género, foram as bases. Não pretendo reforçar a discriminação de género, cultivar qualquer extremismo de género mas antes, exprimir a admiração por toda a sua criação que nos deixou, pela classe com que sempre se apresentava publicamente, e que tratava a música da mesma forma que eu a vejo: uma verdadeira obra de arte, que merece , sempre que é ouvida, toda a sua atenção. Uma mulher que, apesar de todo o envolvimento político e social dos anos 70, sobreviveu e nuca deixou de acreditar nos seus valores, e nas suas capacidades. Reportando-nos aos dias de hoje, teria um enquadramento diferente, onde o fosso social de raça acabou por quase desaparecer, mas outros desníveis creio que ainda têm possibilidade de melhoria. Tudo se prende com o egocentrismo, e com a forma como nos protegermos da comunicação menos positiva de outros seres humanos, não permitindo que a mesma invada o nosso bem estar, e a nossa segurança. Tudo tem a ver com gostarmos muito de nós, e termos força e rebelia para não largarmos essa força. A liberdade permite-nos viver de outra forma, não existindo opressão, sendo controlável por cada um de os indivíduos, ajustada à sua medida. Curioso, Nina , sempre que compunha/ criava sentia-se equilibrada. O importante é conhecermos os nossos pontos de equilíbrio e trabalhar os mesmos, de forma persistente e acreditarmos, que somos sempre capazes de aceitar tudo o que de novo e diferente nos apareça, de forma saudavel que Nina provou por vezes não ser fácil de conseguir, visto o seu refugio ser a extravagancia, o álcool e o tabaco. Será que por sermos muito ambiciosos na nossa vida profissional, o equilíbrio oposto é também extremado? .