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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

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A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Depois do medo

01.06.20 | Delcy Reis

Sensações do dia. e depois do medo, o que fazer?

Sinto-me sem poder respirar, não me deixam respirar. Como se de um peixe fora de água à procura da água para poder sobreviver.

Sinto-me sem poder controlar o que me rodeia.

Respiro e com calma.

Não era planeado, nem conhecido por mim este tema do Corona. Nem por mim nem por ninguém. 

Aquilo que tenho vivido, aquilo que tenho assistido a nível mundial apenas me apela a filmes como o “I am legend”, “The Road”, e entristece-me saber que fomos nós. Humanos.

Nas ruas, vejo os que não têm casa, descalços, alcoolizados, alguns desesperados.

Nas ruas vejo predominantemente homens. E por mais que procure retirar maus pensamentos, más visões, só consigo perspectivar revoluções. Violência.

Certamente pelo que me vai dentro. Certamente pela pequenez que sinto ter neste momento,

Como uma bola de ping pong.

Gerações anteriores referem que a estabilidade é o principal. Mas, casos como Therese Tucker, são eventualmente aqueles que ainda me sustentam.

Urge uma mudança drástica de todas as economias para os tempos de hoje.

Medo de errar, medo de perder, medo de desaparecer. Neste caso, a conjuntura atual até nos incute um certo receio de viver. Tempos estranhos aqueles em que vivemos, onde até o receio de olhar prevalece.

Máscaras, luvas, empregados que nos pedem a identificação de cada vez que vamos a uma esplanada. Nas mesas, acrílicos para protecção. O bem estar e prazer de desfrutar de um pequeno almoço na rua, torna-se um sofrimento, ora porque sentimos que não estamos no café, porque temos um acrílico mesmo à nossa frente, ora porque o gerente de loja se encontra constantemente a perguntar se já terminei, para poder sair, para ele poder atender mais do que um cliente.

Parei numa ótica, e mostrei interesse em entrar. A mesma pequena, com uma campainha à entrada e barrada com uma cadeira. Entrei. Serviram-me um café. Queria reparar os meus óculos de sol e, de facto estava a procurar namorar uns óculos que tinha perdido.

O gerente de loja convida-me para entrar, os dois de máscara. Serve-me um café. Retiramos ao mesmo tempo a máscara como se de uma exposição junta se tratasse ao virus. Confiantes, olhando um para o outro.

O gerente de loja, apresentava um discurso em nada coerente, porque me questionava a  necessidade do par de óculos, tendo em consideração que me teria que encontrar em casa. Então, de cada vez que referia que queria comprar os óculos, ele próprio me dizia, “para estar em casa”, rindo.

Espirra. Pânico. Refere, de forma relaxada, “ provavelmente será o covid”. Entendo, porque será assim mesmo que teremos que futuramente viver. Aceitar que ele estará entre nós.

Pergunto como vai o negócio. Novo desafio de resposta, porque o otimismo terá que estar sempre presente: “ Agora ainda melhor, antes era uma confusão porque não podíamos dar um atendimento personalizado, com 20 ou 30 clientes ao mesmo tempo. É uma oportunidade para podermos prestar um serviço customizado”. Um desanimo atroz.

Desisti da compra.

Neste contexto atual, o tema do futuro é certamente questionável, o propósito de vida é questionável, a razão pela qual consideramos fazer sentido que a vida exista.

Ninguém é capaz de controlar todas as suas emoções. Não consigo respirar, como se de uma implusão se tratasse.

Não consigo mexer os braços as pernas. Estou dormente.

Tenho o corpo e a mente dormentes, apagados.

Será um novo equilíbrio de Nash, mas onde a escolha individual prevalece à em conjunto. Nos tempos de Corona.