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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Qui | 30.03.17

Cuatela xi bo come e ca da foça

Delcy Reis

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Boj Notxi. Hoje escrevo num dos crioulos de São Tomé. O forro, onde aprendi algumas expressões, não descorando o angolar e o principiense. Fui novamente guiada por um local, diferente, mas com as bases de promoção do seu turismo bem assentes: o cafe, o cacau, a fruta. O olhar partilhado ja foi diferente, com influencia ja ocidental, quer no modo de apresentar o seu pais, quer na forma de interagir com o turista. " o que a terra te da, come para te dar forca". Espero nao ofender, por algum erro, mas foi isto que retive da expressão que intitula este meu texto hoje. Fui conhecer o sul desta maravilhosa ilha, sem qualquer Googlada de imagens sobre o que poderia ser, apenas com a força dos locais, a descreverem que ainda era mais verde, conseguia ser ainda mais virgem, concepção que nao consegui criar no meu cérebro. Viagem sinuosa, onde pontos familiares são visitados e nomes de vilas, me lembram de casa: Angra, Ribeira Afonso, Boca do Inferno, sendo o objectivo final da viagem a Praia de Jale. Confesso, estive todo o dia a encontrar as melhores palavras para poder descrever, sujeitando o raciocínio a um processo de organização, começando pelas cores, depois pelas texturas, e depois pela mística. Cores, de um verde forte, amarelado, a pender sobre o mar, e um areal dourado pela chuva; um mar azul acinzentado pela intensa chuva derramado nas últimas horas. Sentir cada gota na mão, agua quente sobre uma pele suada. Inspiro.Novamente o cheiro a terra, castanha como o cacau. E claro que no meio do trajecto, Água Ize, nao passou despercebida, onde me assaltaram as recordações da planta pudica e do búzio de terra. Na Roça de água Ize, ouvi pela primeira vez, columbano, a distinção da raça mas sem qualquer carácter pejorativo, apenas uma constatação da minha diferença. Na Roça Água Ize, voltei a sentir o que e um dar de mão, se bem que mais pequena, e um puxar de saia, sentir que estava acompanhada, mesmo que por segundos. Na Roça, vi que as baratas pertencem ao ecossistema da produção deles do cacau seco, cheirei que o cacau, depois de seco e fermentado, tem mesmo aquele cheiro doce. Em Porto Alegre, conclui que a vinha de palma sabe ao vinho doce de la de casa, se a palma estiver mais madura; e que um sorriso, e a cultura de dar e receber faz com que sejamos sempre acolhidos. E a cultura de dar e receber, equilibra qualquer relação, mercantil, emotiva, basta que haja um humano. Havendo a troca ha sempre o equilíbrio e o bem estar. As altas palmeiras, que são os seus para raios, as folhas de mafaba que protegem da chuva, o pau sabão que ajuda a lavar a roupa. Cuetala. Sorri por uma merecida Rosa porcelana, e lambuzei o cheiro da Elanglang fresca na dominante roca de São João de Angolares, onde os tachos roçam. O acre do limão junto com o coentro selvagem, preparados pelo Edgar no Mionga, trouxeram outro sabor ao atum, ao xuxu cozido. A imagem do Cão Grande, a casa do patrão do Obo Parque, onde as nuvens lhe prestam respeito e, juntamente com as palmas, bananeiras e coqueiros, apresentam um cenário tropical para o qual, desculpem, nao consigo escrever e colocar aqui ou noutro suporte de escrita o que transmite. Só ouvimos a natureza, e somos no sul sempre vigiados por ele, o cão grande, que nos orienta, domina e trespassa. Sangue Mue, Amole Maxibin. São Tomé nao para de me surpreender e preencher.