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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

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A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Ter | 03.07.18

A Rapariga do mundo

Delcy Reis

Tal como os contos tradicionais, este vai começar também da forma tradicional.

Sei que não sou tradicional. Não sei o que sou, rotulem-me da forma que entendererm. Sei que sou eu.

Era uma vez uma rapariga que sonhava com o mundo.

Era uma vez, uma rapariga de coração enorme que tinha vontade de abraçar o mundo.

E foi abraçando, sempre que podia. Abraçou o mar, e vai sempre abraçando.

Abraçou a Ásia, e toda a sua cultura em pormenores. Principalmente a simplicidade de vida, e felicidade que a ela também subjaz.

Abraçou novamente a Ásia, em busca de conforto espiritual, na ética, sabedoria, e concentração.

Abraçou, o jardim da Harmonia Cultivada, em Pequim, onde Tseu-Hi teve lugar numa dinastia desconhecida, não se percebendo bem porquê.

Palácio de Verão, onde conheci o taoismo, e tão fortemente me identifiquei com ele, principalmente com o palavrão Wu-Xing.

No ciclo da geração, a madeira alimenta o fogo, e água dá vida à madeira por si só.

Eo ciclo da geração, foi sempre acompanhando a. menina do mundo, que procurou aprender a praz nas pequenas coisas, para poder, com a força das mesmas abraçar as grandes.

Rapariga que acreditava no amor, rapariga que acreditava, na humanidade, e no amor infinito. Só esta a palavra. Acreditar.

Mas, o mundo que ela queria abraçar, não era o mundo que ela queria, efectivamente, abraçar. Porque o abraço não lhe correspondia.

Porque não era justo. Porque não era limpo, porque não queria abraçar.

E ela, queria só aquele globo para ela, que ele girasse da forma que ela entendia, que ele fosse diverso como ele deveria ser, que ele fosse sustentável, e lhe trouxesse a paz que tanto queria ter.

Ela queria ser livre, e poder explorar, devagarinho e com a curiosidade que é dela, o globo que dela era.

Cada caída de água, cada roçar de pinheiro, cada raio de sol. E queria vivê-lo, não simplesmente contemplá-lo numa qualquer página, num qualquer monitor.

Ela queria sentir a vida.

Menina do mundo.

E procurou, o que o corpo, o humano, lhe podia dar. Já que a interacç\ão humana que tinha era nula. Procurou a alegria, a felicidade nas pessoas do mundo. Mas antes em si.

E dançou, dançou até horas incontroláveis da noite.

Menina do mundo, que sempre esteve habituada a controlar como o globo girava, deixou que o globo a girasse. E sentiu a robustez do globo, e a certeza de rumo da rotação da terra. E adorou essa segurança.

Adorou, ao fim de tantos anos ser levada, e deixar-se levar, confiando.

Já conhecia África, e sabia que esta lhe trazia bons vibes. O improviso, a surpresa, a curiosidade.

Dançou e dançou com África, que tanta felicidade lhe trouxe, pela simbiose tão simplesmente realizada e sentida.

Atreveu-se a conhecer o continente, começando por São Tomé e as Rolas. Onde também são felizes e vivem a um ritmo e tranquilidade invejosos por vezes.

Menina do mundo que deu todo o seu amor ao seu país. Mas ele deita fora e despreza.

Menina do mundo, que vai saltar o precipício, sem rede, porque a madeira absorveu a terra, a terra reteve toda a água, a água apagou o fogo.

 

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