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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Amor. Vida. Ego.

06.06.20 | Delcy Reis

Sentirmos que somos importantes. Para quem, quando, porquê?

Encontrar a paz que tanto queremos, o conforto que tanto buscamos.

Saber lidar com a solidão, e nela buscar as recordações, memórias de tempos que terminaram, de projectos que infelizmente não tiveram continuidade. 

Por tamanha amargura que a vida nos possa, constantemente trazer, os ciclos repetem-se. Buscar nas pequenas coisas que a vida tem, prazer. Coisas muito pequenas, sem grande intensidade.

Sim, continuo a não encontrar o conforto, ou então, quando o encontro, não entendo, não tenho a segurança que aquele que me foi dado recentemente, queira dar continuidade.

Tento,  a todo o custo perceber o que é o amor, e apenas dar àqueles que continuamente podem acreditar em mim.

Recordo, de coração cheio bons momentos, partilhados na sua grande maioria, com amigos e familia, quer sejam amigos que surgiram pela vida profissional e assim foram ficando.

Tempos estranhos, onde me recuso a viver sem um companheirismo.

A saída de um país que tanto me deu, mas que também tanto me tirou, desta vez foi mais pesada.

Pelos que deixei,mas principalmente por aqueles que visitei e deixei.

Tempos de confinamento, onde perdemos bastante no que a auto estima respeita, porque estando isolados, não temos aquele olhar que nos aquece, não temos aquela voz que nos acompanha.

Ora gerimos egos, ora então, simplesmente expomo-nos emocionalmente.

Encararmos a injustiça como o prato do dia, a distancia como relativa.

Pelo egoísmo que nos caracteriza a todos e cada um de nós, e com medo de criar uma dependência emocional, distanciamo-nos, dizendo que se trata do nosso espaço e que também o é. 

Mas, no meu caso, ainda haverá espaço para mais alguém. Mas o espaço fica cada vez mais pequeno, ora porque ficamos mais descrentes, ou então podemos dizer mais exigentes.

Depende da força e do otimismo que carregamos naquele momento.

E avaliamos, estatutos, propriedades, parte material, colocando em segunda parte princípios, valores, que são a base de qualquer relação pessoal.

Encontro-me perdida nestas três palavras. Sem perceber.

Procuro, na minha pequenez, dar-me algum valor, e reconfortar-me certa que melhores dias virão.

Procuro o não desafio. Mas é impossível.

Procuro o meu ego. Está fraco, neste momento. Rosa com mais espinhos do que pétalas.

Depois do medo

01.06.20 | Delcy Reis

Sensações do dia. e depois do medo, o que fazer?

Sinto-me sem poder respirar, não me deixam respirar. Como se de um peixe fora de água à procura da água para poder sobreviver.

Sinto-me sem poder controlar o que me rodeia.

Respiro e com calma.

Não era planeado, nem conhecido por mim este tema do Corona. Nem por mim nem por ninguém. 

Aquilo que tenho vivido, aquilo que tenho assistido a nível mundial apenas me apela a filmes como o “I am legend”, “The Road”, e entristece-me saber que fomos nós. Humanos.

Nas ruas, vejo os que não têm casa, descalços, alcoolizados, alguns desesperados.

Nas ruas vejo predominantemente homens. E por mais que procure retirar maus pensamentos, más visões, só consigo perspectivar revoluções. Violência.

Certamente pelo que me vai dentro. Certamente pela pequenez que sinto ter neste momento,

Como uma bola de ping pong.

Gerações anteriores referem que a estabilidade é o principal. Mas, casos como Therese Tucker, são eventualmente aqueles que ainda me sustentam.

Urge uma mudança drástica de todas as economias para os tempos de hoje.

Medo de errar, medo de perder, medo de desaparecer. Neste caso, a conjuntura atual até nos incute um certo receio de viver. Tempos estranhos aqueles em que vivemos, onde até o receio de olhar prevalece.

Máscaras, luvas, empregados que nos pedem a identificação de cada vez que vamos a uma esplanada. Nas mesas, acrílicos para protecção. O bem estar e prazer de desfrutar de um pequeno almoço na rua, torna-se um sofrimento, ora porque sentimos que não estamos no café, porque temos um acrílico mesmo à nossa frente, ora porque o gerente de loja se encontra constantemente a perguntar se já terminei, para poder sair, para ele poder atender mais do que um cliente.

Parei numa ótica, e mostrei interesse em entrar. A mesma pequena, com uma campainha à entrada e barrada com uma cadeira. Entrei. Serviram-me um café. Queria reparar os meus óculos de sol e, de facto estava a procurar namorar uns óculos que tinha perdido.

O gerente de loja convida-me para entrar, os dois de máscara. Serve-me um café. Retiramos ao mesmo tempo a máscara como se de uma exposição junta se tratasse ao virus. Confiantes, olhando um para o outro.

O gerente de loja, apresentava um discurso em nada coerente, porque me questionava a  necessidade do par de óculos, tendo em consideração que me teria que encontrar em casa. Então, de cada vez que referia que queria comprar os óculos, ele próprio me dizia, “para estar em casa”, rindo.

Espirra. Pânico. Refere, de forma relaxada, “ provavelmente será o covid”. Entendo, porque será assim mesmo que teremos que futuramente viver. Aceitar que ele estará entre nós.

Pergunto como vai o negócio. Novo desafio de resposta, porque o otimismo terá que estar sempre presente: “ Agora ainda melhor, antes era uma confusão porque não podíamos dar um atendimento personalizado, com 20 ou 30 clientes ao mesmo tempo. É uma oportunidade para podermos prestar um serviço customizado”. Um desanimo atroz.

Desisti da compra.

Neste contexto atual, o tema do futuro é certamente questionável, o propósito de vida é questionável, a razão pela qual consideramos fazer sentido que a vida exista.

Ninguém é capaz de controlar todas as suas emoções. Não consigo respirar, como se de uma implusão se tratasse.

Não consigo mexer os braços as pernas. Estou dormente.

Tenho o corpo e a mente dormentes, apagados.

Será um novo equilíbrio de Nash, mas onde a escolha individual prevalece à em conjunto. Nos tempos de Corona.