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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Senhor António em Frankfurt

28.02.19 | Delcy Reis

Depois de quatro horas a sobrevoar o continente europeu, volto a encontrar Portugal pelo Mundo, sem querer, e sem procurar.

Ainda em meio estado dormido, uma enorme sensibilidade à luz, frio e poucas pessoas, pela hora.

Desesperadamente em busca de um café. 

E, contrariamente à prática vigente, sem um bom dia a não ser digital, fui presenteará pela simpatia de António:

” Então, minha flor o que é que procura?” 

Confesso que eram as palavras que menos previa ouvir em pleno aeroporto de Frankfurt, e desconhecia o ar perdido que eventualmente estava a transmitir.

Respondo,  Adorava -e já com um sorriso, pela flor que em mim brotou- beber um café. Um café , e muito simples se depois quiser conversar, sabe onde me encontrar.

Estava com tempo, portanto, voltei a cruzar-me com António.

Senhor do distrito de Guarda que ao perguntar-me de que zona de Portugal era, seguidamente, diz aquelas que são as palavras que motivam a saída de alguém do seu país, naquela geração. 

Antonio já trabalha há 30 anos em Frankfurt, e diz que Portugal, não lhe deu nada. 

Pessoa que, também ela, se sente só, e tendo a oportunidade de criar uma breve tertúlia, por breves momentos, pelos passageiros portugueses que aqui passam procura recordar o seu país. Com amargura, certamente pelos motivos de saída, ou motivos familiares mais recentes, tendo toda a sua estrutura familiar na Alemanha.

Arrisco e pergunto se tem visitado Portugal com regularidade, ao que me responde, revoltado “ acha-se mais portuguesa que eu?” 

Viajo com regularidade a Portugal mas Portugal tirou-me tudo.

E, também nesta vida, o país tirou tudo a este homem, tendo quase tirado a vida. 

Relatos de amor, de compromisso e coerência que sinto não acontecerem nos dias de hoje.

Certezas seguras de compromissos assumidos,  da importância da mulher, dos filho de na sua vida, da estrutura familiar, sendo difícil para mim de desintiguir a simpatia do discurso, versus a sua veracidade. Mas, mais uma vez acreditar na partilha que António não conseguia viver sem a sua mulher, contando a história romantica, que largou tudo o que tinha na altura para assegurar que ela se mantinha presente na sua vida, do forma constante.

Senhor que, mesmo com a idade que tem, procura transmitir segurança nas palavras que transmite, certeza do caminho que fez, sem qualquer arrependimento das decisões que veio a tomar. 

Qualquer palavra de alento que proferisse, tal como eu, é sempre retificada, sendo evidente a importância que ele tem para ele próprio. Como se adora, e gaba de tudo o que materialmente tem. E a vida é mesmo isso, o património material e pessoal que vamos tendo e vamos construindo, para termos um legado do qual nos orgulhemos.

Bom trabalho! 

António responde, o trabalho está feito, agora é só controlar.

António cuja família  vive na sua totalidade na diversidade de um aeroporto. 

Uma família portuguesa que garante a segurança, controlo aéreo e parte administrativa do aeroporto de Frankfurt.

 

 

 

 

 

 

 

House of cards

10.02.19 | Delcy Reis

Série iniciada em 2013, que combina a vida pessoal de um casal, onde os dois membros do mesmo são pessoas amplamente ambiciosas, não olhando a meios para alcançar aquilo que pretendem na sua vida profissional.

Claire e Francis, um casal que vive de forma bastante intensa, tendo um compromisso emocional bastante forte com a Casa Branca, quase como se fosse a sua propria casa, onde moram.

Conhecem todos os corredores, conhecem todas as formas de negociação, de abordar de acordo com o interesse em causa. Práticas menos éticas, onde a fragilidade é compensada de forma relacional ou material, o objectivo de alcançar o poder máximo é palavra de ordem. O poder que vêm de poder contribuir para a vida de milhões de pessoas e para uma das principais economias mundiais é digno de ser registado.

Série que tive a oportunidade de ver, e que pela mudança de perspetiva apresentada na fase final da season 6, faz denotar que sim, é fantástico podermos rodear-nos de pessoas que nos influenciem, mas sempre será menos antagónico podemos influenciar aqueles com que nos caracterizamos, pelas tendencias e gostos pessoais serem mais próximos.

E que confusão poderá gerar num ser humano que conhece tão bem estas duas realidades, e identifica formas diferentes de comunicar, e para quem eventualmente as palavras de confiança e lealdade serão a base de tudo, força resiliência e a consciência é de facto esquecida. Adjetiva-se também de maturidade ou então, também poderemos adjetivar de poder de relativização em busca de objetivos pessoais, sendo colocados noutra esfera, ou simplesmente renegados da nossa esfera.

Série bastante atual, onde ambição luxúria, capacidade de persuação, sempre com uma ameaça como base, naturalmente no que a exposição respeita, jogos de interesses, onde a corrupção poderá estar presente e não é dissociada do poder de influência.

Três esferas completamente distintas, e que se relacionam de uma forma tão equilibrada: relação pessoal; vida política, e exposição mediática, sempre e claramente influenciada pela oposição de quem está no poder. 

Palavras, como verdade e transparência, novamente usadas em processos de mentalização de massas, onde a forma de comunicação, e a imagem são os pilares de credibilidade. 

Por fim, a maternidade, exposta e explorada da forma mais natural: onde o homem, entende que a mulher pela responsabilidade de trazer este ser ao mundo deverá ser mais sensível a eventuais posições de força e poder, onde a chantagem emocional aparece novamente, para de certa forma procurar fragilizar a oposição.

Somos todos responsáveis pelo futuro, quer tenhamos ou não filhos, quer tenhamos ou não família, simplesmente pela forma como contribuimos para o mesmo, ou então, dito de outra forma, de como a sociedade vai permitindo que o façamos.

Homens sem Mulheres.

10.02.19 | Delcy Reis

Título de livro intrigante, que me despertou curiosidade, talvez para tentar perceber o enquadramento de cada um de nós, mulheres, homens, no que a relações interpessoais diz respeito.

Título que se pode considerar este também bastante atual e enquadrado nas temáticas de género, tão amplamente debatidas nos dias de hoje.

Livro que nos prende, por Murakami, tal como em Kafka à beira mar, nos conseguir reter e prender ao seu mundo.

Descrições enigmáticas de personagens, onde a combinação com paisagens japonesas ainda pode despertar mais curiosidade a quem eventualmente ainda não teve oportunidade de ler este livro.

Da minha leitura, as passagens que retive com maior entusiasmo, foram Xerazade, onde a descrição de uma mulher estranha e diferente, que invade o mundo real de Habara, cruzamentos improváveis, onde o risco e acreditar na palavra ou mesmo fabulação contada por cada uma das partes, realiza o capítulo.

Samsa apaixonado, uma história interessante pelo facto de reunir duas personagens completamente desalinhadas do mundo onde se encontram, sem consciência do papel que podem representar, e onde a descrição biológica do fenómeno paixão, não poderia ser mais crua e platónica simultâneamente. Homens sem Mulheres, um desfecho pleno, onde a meu ver as palavras escolhidas para descrever a lógica de uma relação acabam por fazer todo o sentido, não sendo necessário em toda a escrita, recorrer a palavras como romantismo, flores, amor, ou as típicas formas de manifestar como as relações pode ser descobertas e regulares.

Em Homens sem Mulheres, a diferença de personalidades, o instinto inicial de reconhecer pessoas que não podem ser presas, a descoberta de pessoas que tendencialmente ao viverem a vida de uma forma demasiadamente intesa, acabam por se desiludir também com a mesma de forma bastante intensa.

Em Homens sem Mulheres, é mais uma vez evidenciado que, a monotonia emocional é o prato do dia, por uma questão de bem estar, medo, protecção e longevidade. Nos dias de hoje, adjectiva-se de maturidade.

Haruki, defende contudo que as mesmas podem ser feitas de mudanças, e podemos olhar para uma mudança como isso mesmo, ou então pelo simples desaparecimento.

Haruki, em cada uma das obras suas que li, foi capaz de transformar o quotidiano, num mundo de  fábulas, sendo esta uma constância em todas as suas obras, onde as personagens e animais, têm sempre uma pitada de Japão, que a mim em particular, me cativa ainda mais.

Photo Ark

03.02.19 | Delcy Reis

Sempre fui uma curiosa por acompanhar a vida selvagem no nosso planeta.

Tive a oportunidade de, neste fim de semana visitar a exposição que se encontra na Cordoaria Nacional de parte do projeto de Joel Sartore que, ao longo de 25 anos, procura fotografar as doze mil espécies que, neste planeta se encontram em vias de extinção.

Somos convidados a absorver a exposição por diferentes formas de comunicação: desde a resiliência necessária para poder tirar a fotografia a um bufalo, ou mesmo uma ave de rapina onde, quer pelo tamanho, quer pela estranheza da bolsa de pano onde a última é colocada, a mesma reaje de forma bastante agressiva à lente da máquina, que aparece numa brecha de luz reduzida, apenas com a intenção de capturar toda a intensidade do ser.

Entrando no percurso de imagens com uma qualidade gráfica fora do comum, onde cores vivas e fortes de pássaros exóticos cujas espécies era desconhecedora, nos retém. Principalmente pelas expressões dos animais, e pela postura dos mesmos tão bem seleccionada. 

Somos também convidados ao longo de toda a exposição a reflectirmos no nosso papel no mundo, e a tomarmos consciência da velocidade a que, o vamos destruíndo, a velocidade a que espécies são dizimadas, desconhecendo se o ritmo a que as mesmas desaparecem é compensado pela adaptação de novas espécies, às novas condições ambienteais que caracterizam o nosso planeta.

Somos também convidados a ser parte envolvente da consciência, tendo por vista a partilha de imagens publicadas pelo autor, cujas expressões de orangotangos, do Caiarara, do Okapi, nos fazem tão pequeninos nesta imensidão de globo.

Para os amantes da fotografia, da natureza, aconselho a que façam a visita.