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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Belgrado.

19.11.18 | Delcy Reis

Procurar sempre, na medida do possível, e pelas mudanças que a vida  nos proporciona, fazer aquilo que genuinamente gostamos. É, efectivamente libertador. 

Arrisquei, e agora, já de regresso posso afirmar que, mesmo tendo arriscado, tudo correu bem e conforme planeado, na medida em que os riscos a que me expus foram conscientes,  e em nada me surpreenderam. E sim, a isto posso convictamente chamar experiência de vida e alguma sabedoria.

A primeira, decorre dos anos, do tempo, da reflexão. A segunda, decorre da abertura de mente que me foi proporcionada quando era mais jovem. O tema da diversidade, do diferente e novo me saciar a vontade e energia que sinto que tenho em viver.

Pelo que me informei de outros viajantes, a recomendação de quatro dias na cidade, para mim, pareceu-me excessiva. Penso que três dias inteiros, numa viagem a só, e com o propósito de conhecer a cidade, cultura será suficiente.

Há onze anos que não viajava para a Europa de leste, e foi bom revivê-la. Conheci, em tempos Bucareste e alguns dos países que rodeiam a Roménia, mas não tive a oportunidade de conhecer a Sérvia, tendo ficado para uma próxima oportunidade, Montenegro. 

O tão temido tema da segurança. Penso que parte da confiança, e principalmente da nossa força de mente e sentido prático, com solução ou plano b, para qualquer eventualidade que aconteça de forma inesperada. Como, por exemplo, tocarem a campainha do Airbnb, quando não estava de todo a espera de ninguém.

Ainda arrisquei, e sendo um rés do chão, ainda mais arriscado foi, mas tudo correu bem. Falso alarme. 

Bom, avançando pela cidade, que não tem metro, está sobejamente repleta de eléctricos, bastante antigos, autocarros e táxis.

Aqui também é desvalorizado todo o dinheiro em moeda, mesmo que o mesmo tenha o mesmo valor que a nota, o que não tem muita lógica, portanto a partida poderá ser um povo que procura transmitir alguma ambição, se bem que de nada lógico isto tem.

Não fui, nem sou uma pessoa de ir à procura da miséria, mas sim a procura de uma cultura que, sendo bastante semelhante, me abraçou em tempos de uma forma muito positiva. 

Fui, perceber que, de forma geral todos levamos uma vida semelhante, com pilares muito idênticos, e rotinas também elas muito idênticas. 

Mercados de fruta e legumes que ali, ainda não estão fashionizados para refeições ( que saudades), restaurantes e bares que não são franchizados ( que saudades também) ou então que, pelo simples facto de não me serem comuns, voltam a saber-me tão bem.

Igrejas, grotescas, gordas e robustas, bastante amplas e ortodoxas também pela sua construção, para mim conseguem ser mais alegres que as da religião católica: predominam o vermelho e o dourado. O culto que nestes dias corre, de prestarem a sua crença aos seus santos, e diferente: entram na igreja que na porta tem marcas de baton, e percorrem cada um dos santos onde querem acreditar,  benzendo-se sempre, no mínimo, três vezes.

Cheiro insenso e sento-me numa das poltronas que ali se encontram.

Os parques estão limpos, mas secos pelo frio. Os cães são algo que também apreciam e que merecem um conforto adicional nesta época do ano, podendo entrar nos bares. Adorei, cãopanhia foi coisa que não faltou :)

Jazz Basta, pelo criado que foi super simpático e acolhedor, pela música ali tocada, e pela tábua de queijos com Roma, e um belo copo de vinho. 

Nikola Tesla, pela partilha de conhecimento Físico, área que não domino, 

Bicicleta, pelas longas pedaladas ao longo do rio Danúbio, ambas as margens, com os olhos a lacrimejar do frio, e as mãos a doerem também, observando que ali também existe a rotina do domingo, de caminhar com a família à beira rio, ou simplesmente ir passear o cão.

Znak Pitanja, restaurante que recomendo por tudo, todo e qualquer detalhe: desde as mesas de madeira e os bancos, os fornos de pão que aquecem o ambiente e também lhe dão um cheiro especial, até as canecas de cerveja e ao prato de pão com porco e cogumelos lá dentro.

No fim, o brinde perfeito: música da Europa de leste, e um grupo de pessoas a cantarem e bem dispostas.

No início, o porte dos homens pode assustar, porque as vozes são grossas, e tem um olhar frio. Mas acho que isso tem a ver com os filmes que vemos, porque depois de dois dedos de conversa, são super acolhedores.

E, por favor, não deixem de ver a vista no The Victor, à noite. É simplesmente incrível, e o facto de existirem muitos locais que fazem daquele sítio uma das suas rotinas, mesmo a meio da semana, dá que reflectir, pelo menos a mim que raramente me tenho dado a esse balanço, ultimamente. 

Percorri toda a cidade de bicicleta e a pé, e bebi todos os detalhes: lojas de tecido, lojas de comida salgada, cerveja, cevap e sis cevap. 

Ainda fui dar um beijinho a Timisoara, só para lhe dizer que dela, também não me esqueci.