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Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Incompanhia

A companhia dos (in’s) INcerto INcoerente INconstante

Desassossego.

28.01.18 | Delcy Reis

Um dos meus escritores preferidos, e que hoje me acompanham no meu desassossego, refere que há uma maneira de bem sonhar. Fernando Pessoa, escreveu " Cuidarás primeiro, em nada respeitar, em nada crer, em nada. Guardarás da tua atitude ante o que não respeitas, a vontade de respeitar alguma coisa; do teu desgosto ante o que não ames, o desejo doloroso de amar alguém; do teu desprezo pela vida guardarás a ideia de que deve ser bom vive-la, amá-la. E assim terás construido os alicerces para o edificio dos teus sonhos." Quando era mais jovem, apreciei desde que o conheci, a sua escrita, pela não vergonha de mostrar as diferentes heterogeneidades que a vida pode ter, para uma mesma pessoa. Entendo em mim, uma dimensão de razão, e uma dimensão de sonho. E reconheço que o balanço das duas, é essencial. Ainda me encontro a sonhar, a voltar a sonhar conquistar, o que outrora julguei ter perdido. Julgava-me capaz de controlar tudo. Julgava-me capaz de gerir e controlar tudo, em todas as esferas da minha vida. Sinto, um desassossego constante. Ainda procuro o tal equilibrio, sendo que o anterior, penalizou uma das dimensões. Quanto atingimos um estado de letargia emocional, a tal denominada estabilidade emocional individual, sentimo-nos dormentes. Este estado foi irrompido por lágrimas e dor. Por um eco na praia. Sem filtro, sem contenção. Sinto que ando à deriva, mas consciente que, qualquer pequeno tropeço e decisão que tome na minha vida, trará algum impacto. Regressou o desejo de explorar, talvez pelo cão, que adora o sentimento de liberdade, mesmo depois das más experiências que teve associada a mesma. Por naturalidade, a postura de defesa e agressividade está presente, mas não tem medo, à partida do risco. Qual a vida, que é vivida, sem um pouco de sal? Não, não gosto de comida demasiadamente salgada, aliás por defeito a mesma é sem sal. Mas, quando uma pitada do mesmo surge, é tão bom sentir essa diferença. Que venham mais condimentos neste novo ano, que me temperem a alma, a mente, para poder criar, imaginar e criar os restantes dias deste ano. A arte de sonhar, não é a arte de orientar os sonhos. Orientar é agir. O sonhador verdadeiro, entrega-se a si proprio, deixa-se possuir por si próprio. Fernando, sou uma sonhadora desassossegada.

Lapada de gente.

14.01.18 | Delcy Reis

Iniciei o ano com uma lapada de gente. Uma lapada de gente diferente, e com vontande de iniciar o ano. Depois do Natal em família, onde, o quente, cinzento e doce acolheram, começa em força um novo ano. Um jantar de amigos, que já não tinha há algum tempo. Sinto que, com o tempo e a evolução de outras relações, as minhas desapareceram, ou tornaram-se mais fugazes, o que é bom. Porque, quando estamos juntos sentimos a diferença: do tempo, da vida, das relações, das memórias, das pessoas. E recordámos. Obrigada por este início de ano, onde numa tertúlia recordei cheiros, sabores filmes e tradições da minha geração. Onde a curiosidade trouxe a conversa. Tenho estado bastante vulnerável a esta estratificação de gerações, à qual anteriormente não me expunha. Tenho estado bastante vulnerável à diferença, não percebendo bem onde me enquadrar. Mas, esta lapada de cerca de quinze pessoas fez-me bem; pela multiplicidade de relações, experiências e perfis. O único ponto que tínhamos em comum, era o facto de termos todos passado por uma gripe forte, onde o lenço, o cachecol e o casaco grosso eram o nosso conforto. Todos fomos jantar, numa noite de Inverno, África, e musica africana, e tão bem que soube este contraste. Back to the old school, a caminhar por essa Lisboa, de um Príncipe Real, de ruas imperiosas e barrocas, que se desembocam na imensidão do rio Tejo. Fomos, a caminhar, a sorrir e a partilhar. Fomos, a escorregar, pela calçada portuguesa, com pelos e cachecóis a barrarem o frio cortante que regelava estalactites no nariz, e quente que se torna em vapor das nossas bocas. Fomos, a falar e a festejar, a nossa amizade, a nossa geração, a nossa cumplicidade, sem qualquer fundamento de razão.